W. R. BION
Por Gessilda Padilha
Sei que não sou uma especialista em Bion, mas considero-me uma estudiosa de seus textos desde a época de 70 quando comecei a estudar grupos e mais especificamente dinâmica de grupo.
Frente à amplitude do pensamento do Bion e o propósito deste texto, me dedicarei apenas ao Bion com referência a grupos, ou seja, fazendo uma leitura sobre a vertente de grupo.
O nome de Bion aparece na bibliografia de muitos dos mais diversos trabalhos atuais de autores de grupos psicanalíticos diferentes. A vida de Bion é cheia de altos e baixos, cheias de passagens ora pitorescas, bem-humoradas ou reflexivas; ora tristes e trágicas, mas sempre emocionantes (Zimerman, 1995).
Bion construía o seu pensamento de uma forma livre e sem a saturação de sua mente por conceitos já firmemente estabelecidos.
Em suas conferências havia sempre uma interação dele com o grupo, fazendo questionamentos e levando o grupo à reflexão. Tinha, portanto, um jeito questionador e instigante.
Embora os trabalhos de Bion sejam de uma alta abstração, eles só podem ser entendidos a partir da premissa de que a sua obra se baseia na experiência emocional que ocorreu na prática da situação psicanalítica, a qual, como ele nunca cansou de ressaltar, é sempre de natureza vincular.
A obra de Bion não segue uma clara evolução linear e seqüencialmente continuada, é cheia de avanços, recuos, mutações, paradoxos. Mas mesmo assim, mantém uma unidade conceitual.
Assim, a década de 40 é considerada aquela que resultou do seu trabalho prático com diversas modalidades de grupos. Estes estudos lhe propiciaram a observação de que a dinâmica grupal que surge no nível inconsciente do grupo (os “supostos básicos”) confirmava as teorias de M. Klein acerca dos primitivos mecanismos defensivos do ego, das ansiedades psicóticas e das manifestações inerentes à posição esquizoparanóide.
Vale ressaltar que os primeiros escritos de Bion sobre grupos datam de 1943 (“tensões intragrupos nas terapias”), passam por 1946 (“Projeto de um grupo sem lider”), sendo que estes artigos, e outros mais, foram reunidos em 1948 em um livro “Experiências em grupos”. Em 1952, ele publicou “Dinâmica de grupo: Uma revisão”, e em 1961, sob a motivação de que “estes artigos despertaram um interesse maior do que ele esperava”, ele tornou a reunir todos estes textos e os publicou em um livro também intitulado “Experiências em Grupos”.
Em 1952 ele escreve “uma revisão da dinâmica de grupo “. Estes estudos sobre grupos são baseados em experiências vividas em distintos locais, épocas e propósitos. Assim no hospital militar, durante a 2ª Guerra Mundial, Bion descreveu as “Tensões Intragrupais” com grupos formados com a finalidade de reabilitação. Ele também descreve um método original, criação sua, de proceder a uma seleção de candidatos a oficial da armada, através da proposição de atividades em “grupo sem líder”. A experiência grupal de Bion ficou muita enriquecida com os seus posteriores experimentos de finalidade psicoterapêutica na Tavistock Clinic.
São muitos e originais os fenômenos do campo grupal que Bion observou e descreveu.
Em 1966 Bion escreve “Mudança Catastrófica”. Utilizando o modelo continente-conteúdo ele mostra como, em diversos contextos diferentes (na mente, nos grupos, na sociedade, na sessão psicanalítica, etc), sempre há uma conjunção constante de fatos específicos. Sempre que esta conjunção estável se enfrenta com uma situação de mudança e de crescimento, a situação se altera e se instala um clima de catástrofe.
· Esta mudança catástrofica abriga três características: A violência, a invariância e a subversão do sistema.
· Bion descreve três tipos básicos da relação: A comensal, a simbiótica e a parasitária.
Através deste mesmo modelo, ele faz considerações muito interessantes relativas à interação das palavras com os seus significados. Da mesma forma, Bion estuda a relação entre o “gênio”(ou “místico”) – portador de uma idéia nova e o establishment.
Neste livro, Bion estuda a relação entre o “pensador” e os “pensamentos”, sob o prisma da verdade, falsidade e mentira.
Em 1970, no livro “Atenção e interpretação” Bion traz um novo desenvolvimento das concepções já estudadas em “elementos” e em “transformações”, sendo que o autor tentou mostrar uma analogia e uma conjunção entre alguns conceitos psicanalíticos, os dogmas religiosos, e a matemática moderna.
A preocupação central consiste em como observar, avaliar, interpretar e comunicar adequadamente a realidade psíquica das experiências emocionais já que estas não podem ser captadas e medidas pelos orgãos dos sentidos. Neste ponto, Bion prefere utilizar o verbo “intuir”, como um modo de aproximação à realidade psíquica.
Neste trabalho, Bion volta a estudar a relação do místico com o establishment e, para tanto, ele utiliza alguns aspectos da história de Jesus com os seus seguidores e os seus perseguidores. Igualmente ele volta a abordar em termos de continente-conteúdo, os vínculos: Comensal, simbiótico e parasitário.
O livro se estende sobre o problema da mentira e do mentiroso, e retoma uma ênfase no papel da inveja destrutiva.
Bion e os autores que o influenciaram na sua formação psicanalítica propriamente dita: as maiores influências vieram, fora de qualquer dúvida, das leituras de Freud e de M. Klein.
Apresento neste momento uma visão generalizada e sintetizada daquilo que o influenciou, com relação ao estudo de grupo. Embora haja uma amplitude de influências, não ampliarei para não fugir do tema central deste trabalho.
· Freud
Pode-se dizer que assim como Bion modificou e alargou muitos dos conceitos básicos de Freud, também é verdade que muitos dos pensamentos de Bion não nos fariam sentido, se ele não se referisse continuamente às premissas de Freud.
Vale apenas estabelecer algumas das correlações conceituais, a título de citação:
1. O “conceito de Barreira”
2. O “rd, em confronto com a realidade externa, promove o crescimento do ego”.
3. “Capacidade negativa”(Bion) ßà “Cegar-se artificialmente”. (Freud) “Sem memória e sem desejo” (Bion) ßà Atenção flutuante (Freud).
4. Os estudos de Bion sobre grupos mostram uma nítida influência do texto de Freud, “Psicologia das massas e análise do ego”, de 1921. Assim, Bion parte dos modelos do Exército e da Igreja os quais ele considerou como sendo “Grupos de trabalho” e que foram estudados e utilizados por Freud como ilustração de seus estudos sobre os tipos de lideranças. Da mesma forma pode-se dizer que a concepção de Bion referente aos “Supostos Básicos”do inconsciente grupal, se refere ao funcionamento do “Processo Primário” e, portanto, equivale à descrição que Freud fez acerca do “grupo desestruturado, inerente às massas”, conforme um estudo prévio de Le Bom, bastante citado por Freud no seu citado trabalho.
É claro que existem outros exemplos, mas por motivos de síntese não citarei neste trabalho.
· M. Klein
A influência de M. Klein foi decisiva na estruturação psicanalítica de Bion. Após uma curta análise com J. Rickman, Bion iniciou sua análise com M. Klein, em 1949, prolongando-a até 1953. Esse processo de analise processou profundas mudanças em sua vida neste período.
Além disso, as essenciais concepções metapsicológicas de M. Klein foram plenamente adotadas por Bion.
1. primitivos mecanismos defensivos do ego (dissociação e identificação projetivas);
2. as posições esquizo-paranóíde e a depressiva;
3. a importância da inveja primária e dos ataques destrutivos;
4. a formação de um super ego primitivo;
5. a precocidade da influência não real;
6. a formação de símbolos. Aos poucos, Bion foi introduzindo sucessivas modificações nas idéias clássicas de M. Klein. Só depois da sua morte, 1961, Bion começa a ser mais original. Podemos citar algumas modificações que ele fez:
· em relação à passagem da posição esquizo-paranóide para depressiva, Bion enfatizou um permanente intercâmbio oscilatório e interativo entre ambas as posições, e isto ele representou graficamente por PSßàD;
· em relação à natureza e formação de símbolos, Bion forneceu um entendimento a partir de um vértice essencialmente diferente ao de M. Klein.
· Em relação ao clássico conceito kleiniano de “separação” Bion preferia falar em “reestruturação do ego”.
Bion sempre proclamou uma fidelidade ideológica a M. Klein. Mas tudo leva a crer que ele, reservadamente, guardava algumas impressões negativas a respeito dela.
Bléandonnu (1990, p. 108) destaca que a relação de Bion com M. Klein era um misto de gratidão e de muito ressentimento. Ele a achava firme, mas com excesso de autoritarismo e rigidez. Outra queixa de Bion é que Klein não só não era favorável, senão completamente hostil ao seu trabalho com grupos, pois ele não só se interessava pela individualidades mas também pelos problemas das sociedades psicanalíticas, e tinha interesse pelos problemas psicossociais.
· D. Winncott
Embora tenham sido contemporâneos a verdade é que, aparentemente, um não tomou conhecimento do outro.
1. Ambos tiveram um convívio íntimo com M. Klein.
2. Os dois tinham um invulgar senso estético artístico;
3. Os dois reconheceram e enfatizaram uma precoce e extraordinária importância à mãe da realidade externa e ambos destacaram a relevância da introjeção das funções desta mãe.
4. Os conceitos de Holding e o de “Preocupação Materna primária” (Winnicott) ßà”continente” e Reverie (Bion)
5. “Pré – Concepção” (Bion)ßà”Espaço de ilusão” (Winnicott)-à “Realização” criativa.
6. “Catástrofe” ßà”Não – integração” ou “desintegração” (Winnicott) ßà “Mudança Catastrófica” (Bion).
7. Ambos se interessaram pelos problemas relativos à Verdade, Mentira e Falsidade.
· Lacan
Em relação a Lacan, o que sobretudo chama a atenção é a similitude deste autor com Bion, no que diz respeito ao entendimento e à valorização das questões pertinentes aos fenômenos da linguagem, em que os significantes e os significados adquirem um caráter estrutural.
Encontramos semelhança entre Bion e Lacan no que se refere às concepções derivadas da dialética da presença e da ausência.
Outra ponte de aproximação entre os dois é no que diz respeito à importância do discurso dos pais e da cultura na determinação da personalidade do indivíduo.
Bion também recebeu influência de poetas, literatos, matemáticos, historiadores, filósofos, tais como: R. Kipling, Keats, Melton, Virgilio, Shakespeare, M Bulier, S. Beckett, Anzieu, Simon, A .Toynbee, H. Poincaré, Kant, Wittgenstein, Mestre Eckart, D. Hume, Heisenberg, Platão.
Entraremos agora com mais detalhes sobre o trabalho com grupos. Os trabalhos de Bion com grupos ocupam um lugar de grande relevância na sua produção científica, por dois motivos:
1º- Foram os grupos que lhe possibilitaram reconhecer a presença dos mecanismos psicóticos e isso o alavancou para um aprofundamento no trato de pacientes esquizofrênicos.
2º- Bion tornou-se internacionalmente conhecido através dos seus estudos ligados à dinâmica dos grupos, e isso lhe abriu as portas para a divulgação do desenvolvimento de suas idéias em outras áreas do campo psicanalítico.
No período da Segunda Guerra Mundial, a psiquiatria e a psicanálise ascenderam a um plano de muita importância, porquanto os distúrbios emocionais se constituíam visualmente como a causa mais importante da inativação dos militares.
As forças armadas propunham programas de reabilitação e de readaptação, Bion, ao retornar à atividade militar em 1940, observou que havia uma espécie de conluio inconsciente entre pacientes, o corpo médico e a instituição hospitalar e por outro lado, o exército precisava aumentar seu quadro de oficiais. Desse modo Bion teve a idéia de utilizar o recurso grupal. Era um plano de reuniões coletivas, onde discutiam os problemas daquele grupo e estabeleciam exercícios e tarefas. As reuniões eram diárias, o grupo era formado por 15 participantes. O objetivo era readaptá-los à vida militar, ou então, julgar se eles eram capazes de voltar ativamente a essa vida.
Bion conseguiu restabelecer a disciplina e manter uma ocupação útil dos seus homens e, com isso, constituiu-se um verdadeiro “espírito de grupo”. Por razões nunca esclarecidas esse trabalho durou apenas seis semanas. Dessa curta experiência o hospital Northfield tornou-se o berço da “Comunidade Terapêutica”, cujo modelo, após a guerra, ganhou uma enorme expansão, principalmente nos Estados Unidos.
A técnica usada por Bion foi a de “grupo sem líder”. A mesma consistia na proposição de uma tarefa coletiva aos participantes e durante a construção da tarefa, os observadores especializados avaliavam, não a capacidade de cada um executar a tarefa, mas sim a aptidão em estabelecer as relações interpessoais, em enfrentar a tensões geradas, os medos vividos e o desejo de êxito.
A aplicação dessa técnica possibilitou quatro vantagens que foram reconhecidas por todos:
1- Economia de tempo.
2- Avaliação compartilhada coletivamente.
3- Observação da interação grupal.
4- Observação dos tipos de lideranças.
Com o final da guerra, Bion retornou a Tavistock Clinic com o objetivo de conseguir mudanças estruturais. Ele iniciou um grupo composto por uns dez diretores de serviços da Clínica e trabalhou com eles em um clima de alta tensão grupal, e com objetivos indefinidos, em função desse grupo ser ao mesmo tempo, tanto de integração institucional como de formação técnica, e também de finalidade psicoterapêutica. Essa experiência não durou muito tempo, mas foi bastante mobilizante.
Outra experiência foi um grupo proposto por Bion onde os participantes já haviam tido experiência com grupos. O aspecto inovador é que cada participante podia ser paciente ou analista. Essa experiência não teve êxito; ao final de um ano o grupo se extinguiu por falta de participantes.
Em 1948 Bion organizou os seus grupos unicamente terapêutico, tirando dessa experiência várias contribuições que permanecem vigentes até hoje.
Dentre as concepções originais da dinâmica do Campo grupal, além que já referimos em relação aos grupos de reabilitação e de seleção, os grupos sem líder, e a abertura para a comunidade, destacamos outros conceitos.
Ä MENTALIDADE GRUPAL: O grupo adquire uma unanimidade de pensamento e de objetivo, o qual transcende aos indivíduos;
Ä CULTURA DO GRUPO: Resulta da oposição conflitiva entre as necessidades da “mentalidade grupal”, e as de cada indivíduo;
Ä VALÊNCIA: Esse termo é tirado da química, e que designa a capacidade que o indivíduo tem em combinar com os demais, em função dos fatores inconscientes de cada um;
Ä COOPERAÇÃO: É a interação das pessoas orientadas pela razão. Está relacionada com o “grupo de trabalho”;
Ä GRUPO DE TRABALHO: Bion afirma que todo grupo opera sempre em dois níveis que são simultâneos, opostos e interativos mas delimitados entre si. Um é o “grupo de trabalho” e o outro é o “grupo de base”. O “grupo de trabalho” está voltado para aspectos conscientes, para a tarefa;
Ä O GRUPO DE (PRÉ) SUPOSTAS BÁSICAS (SB): Os grupos básicos funciona pelas leis do inconsciente.
Bion descreveu três modalidades de supostas básicas e as denominou respectivamente de “Dependência”, de “Luta e Fuga” e de “acasalamento”.
As emoções básicas, como o amor, ódio, medo, ansiedades, etc estão presentes em qualquer situação. Mas o que caracteriza cada um dos três supostos básicos é a forma de como esses sentimentos vêm combinados e estruturados, e por isso, exigem um tipo de líder específico apropriado para preencher os requisitos do suposto básico predominante e vigente no grupo.
Em um texto de L. A. Py (1986) expõe a emergência nos indivíduos dessas suposições básicas e de como eles se interpretam. O autor afirma que “algo emerge inconsciente, instintivo e primitivo levando o grupo a um determinado tipo de comportamento que passa um padrão da espécie humana, tendo em vista o fato de o homem ser um animal gregário.
Trata – se de um comportamento de sobrevivência que então aparece de forma rudimentar, ineficiente, caricata, Os aspectos mais essenciais da sobrevivência da espécie estão aí presentes conforme descritos por Bion. Existe a expectativa da emergência do líder místico, aquele que individualmente detém capacidades invulgares e que tem condições de liderar, dirigir o grupo para a sobrevivência. O instinto de obediência a esse líder aparece caricaturado no grupo de suposto básico de dependência. Como animal predador e ao mesmo tempo alvo e presa de outros predadores, o ser humano necessita estabelecer padrões de comportamento grupais que lhe permitam lutar e fugir de acordo com as circunstâncias. A liderança necessária para tal se faz presente e a formulação das atitudes grupais que fazem face a essas necessidades encontra – se representada no grupo de suposição básica de luta – fuga.
O outro elemento fundamental da sobrevivência da espécie, a procriação e a criação da prole, está expresso no grupo de suposto básico de acasalamento.
Assim, vemos que as principais necessidades básicas de manutenção da espécie humana emergem desta forma primitiva nos agrupamentos humanos quando é dada a oportunidade para tal”.
Essas modalidades de suposto básico não se contrapõem entre si; podem existir em um mesmo grupo e se alternarem no surgimento.
Ä Uma dimensão “atávica” de grupo: na década de 70, Bion acrescentou uma nova dimensão à conceituação dos supostos básicos. Para ele o indivíduo tende a unir – se em rebanhos e a formar famílias, tribos e clãs, Para Bion o indivíduo cidido ao nascer permanece preso a um psiquismo protamental, representado pelos supostos básicos. Seria com outras palavras, uma vida tribal, atávica e profundamente internalizada nos indivíduos.
Ä O grupo trabalho especializado: Seguindo Freud, Bion também estudou a dinâmica dos dois grandes grupos – o Exército e a Igreja – aos quais ele acrescentou o entendimento, sempre dentro de uma óptica dos supostos básicos, de um terceiro grande grupo : o da Aristocracia.
Dessa forma, Bion afirma que a Igreja funciona sob moldes do suposto básico de “dependência”; o Exército, aos de “luta e fuga”, e a Aristocracia, ao suposto básico de “acasalamento”.
Ä As lideranças: Freud e Bion estudaram o fenômeno das lideranças, porém, cada um partiram de perspectivas diferentes. Freud, em 1921, afirma que o grupo se constitui como o emergente de seu líder, enquando Bion, de forma oposta, o líder é que é o emergente das necessidades do grupo.
Ä Grupo sem Líder: Já referido nesse trabalho, Bion utilizou esse recurso como um método de seleção de candidatos ao oficialato militar. Dessa experiência ele chegou a algumas conclusões:
- Nem sempre uma liderança formal, designada, coincide com a que surge espontaneamente;
- São muitos tipos de lideranças espontâneas, e o surgimento varia com as características de cada grupo;
- Um grupo sem liderança tende à morte.
Ä A relação do “gênio” com o Establishment: Bion estudava os grupos do ângulo da psicologia social, isto é, através da interação entre o indivíduo, o grupo e a sociedade.
Um “gênio” (“herói” ou “místico”), é aquele que, por ser portador de uma idéia nova, representa uma ameaça de mudança catastrófica para a estabilidade do establishment (pode ser uma cultura, uma instituição, um poder político, etc), que está firmemente constituído e aceito, para certa época e lugar. Bion nos ensina também que para enfrentar a ameaça do “gênio”, o establishment ou o segrega (através da configuração do bode expiatório), ou dá um jeito de absorver no próprio establishment.
Ä O grupo e os mecanismos psicóticos: Outra diferença na leitura dos grupos entre Freud e Bion é que o primeiro os estudou a partir dos mecanismos neuróticos e da relação de objeto total. Bion pelo contrário, conectou o entendimento da dinâmica de grupo à psicose e à relação de objeto parcial.
Ä A contratransferência do grupoterapeuta: Os fenômenos grupais proporcionou que, com base em Bion, se conclua que é indispensável que um coordenador funcione como um continente adequado ao incessante e cruzado bombardeio de identificações projetivas de uns nos outros.
A pertinência das afirmações de Bion foi confirmada na análise dos grupos primários naturais e artificiais, bem como na análise dos grupos institucionais todos os grupos, inclusive de pesquisa, funcionam segundo os arranjos desses pressupostos básicos e de suas tensões com o grupo de trabalho.
O conceito dos (pré) supostos básicos de “dependência”, ”luta e fuga” e o de “acasalamento” constituem sua elaboração mais conhecida e muitíssimo citada; mas há um empobrecimento na sua aplicação.tinha um desgaste pelo uso corrente e excessivo, e uma aplicação feita de forma mecânica, dissociada da real experiência emocional dos grupos.
Hoje o foco de maior importância no campo grupal se apoia em três aspectos prioritários que extrapolam aos dos supostos básicos:
1- A observação da estereotipia do desempenho dos papéis, posições e funções de cada um do grupo.
2- Os problemas de comunicação entre os participantes do grupo, no que se refere aos “Mal – entendidos”.
3- A singular possibilidade de o grupoterapeuta observar e interpretar o interjogo especular das identificações projetivas e introjetivas de uns com os outros, de modo similar a uma galeria de espelhos, o que permite que cada um se reflita no outro, reconhecendo e sendo reconhecido pelos demais. (Zimerman, 1993).
Bibliografia:
BLÉANDONU, G. (1990), Wilfred R. Bion. A vida e a obra. 1897 – 1979. Imago RJ 1993.
FREUD, S. (1921), Psicologia das massas e análise do ego. Edição Standard Brasileira, Vol XVIII, Imago, RJ 1969.
PY, M. e Silva, L. A. (1986), “Contribuições de Bion à Psicoterapia de Grupo” . in: Grupoterapia hoje. Ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 1968.
ZIMERMAN, D. (1995), Bion da teoria à prática. Artes Médicas. Porto Alegre.